terça-feira, 29 de setembro de 2009

A Porta





A porta. Ali estava ela.
Mais uma vez aguçando minha curiosidade e atiçando meus medos.
Talhada em cedro, sua maçaneta de ouro lembra-me os raios da sol no amanhecer.
Sua imponência me atrai e assusta.

Pela fechadura muitas vezes busquei ver o outro lado.
No início escuridão total.Gradativamente luzes começaram a passar diante de meus olhos convidando-me à uma festa.

Quantas vezes a tentação de abri-la crescia em mim, porem o medo do desconhecido era bem maior que o desejo.
Estava feliz com o cuidado que dedicava aos outros cômodos da minha morada. Acomodada poderia dizer. Azeitava dobradiças tornando-as macias o suficiente para que portas e janelas pudessem ir e vir sem emitirem os rangidos de outrora. Esfregava os vidros tornando-os transluscentes. Limpava os móveis remodelando-os de vez em quando com o que tinha a mão. Pintava paredes para imaginar que eram outras.
Muitos eram os movimentos feitos que me mantinham ocupada na tarefa de renovar a cada dia o cotidiano.
A morada estava cada vez mais limpa. Bonita, arrisco dizer.
Mas lá no porão existia a porta desafiante.

Ali estava ela diante de mim mais uma vez.

Peguei o molho de chaves com uma leve esperança de não ver aquela apesar de querer muito que estivesse ali.
Quase não a vi mas, emitindo seus raios solares, ela me cegou, fazendo-me enxergá-la.

Agora era eu e a chave.
Não sem antes sentir a temerária vontade de, mais uma vez, olhar pela fechadura.
Olho no olho. Eu e as cores. A festa.
Sim.
O que vi foi uma luz de brilho tão intenso que mais parecia a Sol espelhada no Lua (*). Perdi os sentidos.

O tempo passou e, no voltar da consciência o desejo reascendeu. Desta vez com tanto vigor que me vez levantar subitamente, pegar a chave e destrancar a porta.

Pronto.
Nada mais me impedia de abri-la. Apenas eu.
Era preciso sentir meus braços, mãos, pernas, pés e tronco. O meu tronco onde pulsava o meu coração. Meu crânio de onde sabia que vinham os comandos. Um pedido de ajuda. Um apenas? Não. Vários.

HELP!
Fui atendida por meus reflexos espelhados em mim.

Avancei e, reunindo todas os auxílios recebidos, empurrei a porta e mergulhei no espaço. Um vazio iluminado onde o som preenchia o vácuo. Nada existia. TUDO era sentido e fazia sentido.
Como podia eu ter, na minha morada, tal espaço? Porque jamais tinha tido coragem suficiente para adentrá-lo? O que importava agora tais questionamentos?
O fato é que eu estava ali. Diante de um lugar que me pertencia.

Passo pelo portal. Deixo-me envolver por algo que jamais conheci. Uma parte estranha do meu habitat.
Olho para trás.
Fico feliz por saber que todos os outros espaços estão limpos e arejados. Posso passear por eles sem medo de me sentir trancada novamente. Lubrifiquei muito bem todas as dobradiças e fechaduras. As chaves são o meu poder.
Mas, neste momento, a única proposta que me atrai é entregar-me a este novo lugar encontrado.
Minha porta de cedro e sua maçaneta dourada onde vive o universo.
Finalmente vejo-me bela.
Moema Ameom
Itaipuaçu, 29-9-09


(*) Sol é uma estrela e, no meu ponto de vista, a doadora da vida, portanto, se fosse humana seria do sexo feminino. Lua é um satélite onde a Sol se espelha. Absorve a energia devolvendo-a ao Planeta de forma objetivada. Fosse humano, seria do sexo masculino. Enquanto personagens da minha fantasia denomino-os Lós e Aul.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

ELOGIO À LOUCURA

Foto Roberta Andrade

Estou me referindo à loucura nossa de cada dia que penetra pelos poros sob forma de solicitações, cobranças, regulamentos e conceitos a serem cumpridos sob pena de reclusão social e familiar.

Movimentos contraditórios e incoerentes frutos de objetividades nubladas pelo desrespeito aos processos pessoais de (in)evolução.

Loucura esta que, para não produzir distanciamento da convivência, leva o ser humano a contorções mirabolantes nas suas formas de pensar e existir.

Elogiar leva-me a intensificar ao extremo a tensão das redes nervosas a fim de descobrir como fazer para senti-las, percebe-las e observa-las nas entranhas, onde mora a nitidez.

Até quando??

Até quando iremos necessitar desta intensificação para descobrirmos que temos o direito de usar nossos movimentos sem culpa?
De onde vem a culpa?
Surge das ondas de retorno provocadas pelo desrespeito, jogo que inibe o amor próprio.

Respeitar significa aceitar as ondas emocionais circundantes, inibindo o desejo de mudá-las externamente, direcionando as críticas para a construção de um raciocínio lógico, unificando razão e sensibilidade em prol da regulagem do tônus orgânico.

Como posso me sentir culpada por algo que o outro processa em seu interior? Que prepotência é essa que me leva a tal conjectura? Vontade de sentir pelo outro pra ver se desvendo os mistérios da sua alma? É mais fácil e simples adotar o diálogo sincero, sem subterfúgio. Sem medo de se mostrar louco(a).

Surgindo este medo (e ele sempre surge há milênios), se não for vivenciado a contento, vem a desestrutura que desencadeia a rede da loucura; aquela que me balança de um lado para o outro dentro de mim mesma. A esta rede dou o nome de Estresse.

Dúvidas desabrochadas me fazem conviver com muitas pessoas ao mesmo tempo. Todas frutos do meu Ser, mas eu nem ao menos tenho tempo para provar um deles, sentindo o gosto gostoso de des.frutar do seu néctar.
A falta de tempo faz o tempo se sentir inútil. Pra que existir se nem ao menos é observado? Se não é observado, como será utilizado?

É assim que a loucura nos faz construir o fim daquilo que jamais finaliza – A Vida, que, ao produzir ondas, nos leva a dançar nas águas turbulentas, caudalosas das emoções que vitalizam o Sistema onde o absorvido precisa ser processado para ganhar consciência.

Pra que?
Só pra saber o que foi que EU vivi na totalidade do saber que EU produzo e me pertence.

Quem sabe assim, seremos capazes de criar uma nova sociedade onde a violência existirá apenas como alimento à loucura que nos faz Humanos?




Moema Ameom
15-9-2009

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

SOU MAIA



Foto Rodrigo Andrade

SOU MAIA

Estou no cio da magia!!!
Momento que teve início quando me soube avó!
Ali o espetáculo começou e desde então, torno-me espectadora do divino.

À minha frente descortina-se o filme de minha trajetória pela Terra onde as lembranças revividas sinalizam o caminho da (in)evolução. Medos do passado confrontam-se com os do presente estruturando espaço para os medos do futuro. Muitos.

Aprendo, com o olhar construído pelas fragilidades emocionais que me foram implantadas, a enxergar as sementes às quais vale a pena dedicar meu tempo.
A correnteza me conduz para frente; me joga nos riscos totalmente desconhecidos.

Nunca fui avó antes!

Cuidei de muitas crianças que vieram a mim procurando a mãe e avó com as quais sonhavam. Idealizavam-me e colocavam-me nas telas de suas imaginações e no palco de suas vidas; mas ser não é representar. Assumo que confundi as funções. Foi o que aprendi.

Sempre extraí da cena aprendizados múltiplos, mas, quando o pano fechava e as luzes da ribalta se apagavam, por diversas vezes deparei-me com o despreparo psicobiofísico para sentir as ondas de retorno assimiladas, provenientes das traduções mal feitas quanto às minhas interpretações.
A depressão invadia meu coração desequilibrando a essência e, consequentemente, minha saúde. Destes momentos aprendi a captar recursos para re.Ver minhas ações (projetadas nas palavras expressões e atitudes) com a intensão de melhor adequa-las ao próximo evento.

Vale a pena ressaltar que chamo de traduções mal feitas, o que não se coaduna com as verdades do meu ser, ou seja, com o que sinto em relação ao fato abordado.

A boa representação requer muita atenção às “deixas” (*) que o outro nos dá. O sucesso da colocação da nossa intensão, dependerá sempre de como ouvimos o que nos é dito. Este como é construído em nossos sentidos, por isso, será o responsável pela potência da frase seguinte, espelho da nossa verdade interior construída naquele instante.

Minhas responsabilidades diante de meus filhos – nada fictícias - sempre me conduziram a nascentes renovadas pelos medos do erro e, principalmente, dos acertos.
Os conceitos absorvidos, modificados em velocidade inverossímil pelos processos da evolução tecnológica, confrontavam-me constantemente com um distanciamento que me envolvia em mágoas por perceber a incapacidade de acompanhar rebentos que me arrebentavam por me arrebatarem com suas volúpias.

Mãe desarvorada... árvore sem flores e frutos.
O desejo era dar todo espaço do mundo para deixar aflorar Seres plenos, mas estes, por assim serem, voltavam-se qual dragões, cuspido-me o fogo sagrado da transformação.
Que sombra era capaz de dar?

Foi me debatendo diante dessas incapacidades que aprendi a ser capaz.
Foi vivendo todos os medos que esta conscientização me proporcionava, que segui adiante e construí um caminho mais substancial para meus pés.

Bom foi o Universo que só deu o novo desfio quando já me sentia mais estável no anterior.
Entrelaçam-se, qual corrente de elos límpidos, filhos e netos, porem, as responsabilidades são distintas e as ações Completa.Mente diferentes.

Hoje consigo enumerar vitórias alcançadas com as pesquisas desenvolvidas nesta trajetória; pesquisas estas que me valeram um método de trabalho – MOITAKUÁ – compartilhado com quem quer apreender o verdadeiro significado do simples.

Reavaliando processos de fluxos e refluxos compartilho anotações colhidas pela alma qual flores primaveris, frutos doces de uma vida vivida na totalidade da existência.
Arvorei-me pontuando que:

1. É muito importante um dedo em riste apontado firmemente para a cabeça qual arma pronta para disparar ao menor sinal de descuido para com as responsabilidades pessoais diante das ações, reações, e tudo que é derivado das mesmas. Para que “o tiro não saia pela culatra”, prestar atenção para onde o dedo aponta é imprescindível.

2. É fundamental a conscientização surgida da permanente observação das reações que minhas atitudes provocam e a captação do que sinto quando as observo. Trabalhar internamente o que é sentido, modifica a ação seguinte. Sucesso com a platéia é tudo que precisamos para sermos felizes.


3. É básico aguçar a capacidade de perceber as ondas de medo que surgem a todo instante (construtoras do limite) dando a sensação de fragilidade interior e que, na verdade, constroem a fortaleza quando vivenciadas na totalidade. Construir limites para poder da-los sem atropelar o respeito ao individualismo onde é formada a responsabilidade consciente.

4. É essencial aprender que a mente jamais poderá se desligar das ondas pensantes. Quando a mesma atinge o equilíbrio, que pode ser chamado de vazio, alcança a totalidade de impulsos neurais e estes, preenchem a mente com pensamentos variados e criativos. Quanto mais vital mais curiosos, criador, arteiro e artista torna-se o Ser. Aprender a cuidar dos pensamentos é aprender a lidar com as redes nervosas que regulam o tônus gerando o equilíbrio da homeostase.


5. Sendo assim, aprender a lidar com a criatividade orgânica introjectando nela o nível de razão mais apropriado para a coordenação motora dos movimentos vitais que ela desperta é fazer com que a abrangência dos sentimentos construa nossa Orquestra Sinfônica, cujo regente é o Divino que nos envolve.

Passamos a ser maia sem perdermos o rumo das nossas reais responsabilidades diante de nós mesmos.


Moema Ameom
9.9.2009


(*) – Na formação teatral aprendemos que “deixa” é a última palavra dita pelo parceiro de cena e que nos possibilita saber a hora certa para falar o texto que nos cabe.