quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Bordado


 Por Moema Ameom

Ali estava o bordado.
Apenas um moranguinho para a roupa de aniversário.
Algo em mim dizia: "o melhor ponto a ser feito é o cheio." Outra retrucava "Seu ponto cheio é feio."

Esta última vinha dos recônditos de minhas lembranças; do tempo de colégio quando minha professora de trabalhos manuais vivia me sinalizando o quanto eu era desorganizada no tal movimento.
-"Você parece que não tem coordenação! Faz cada laçada de um tamanho!" E lá vinham as notas baixas.

Pois agora, 50 anos depois, ali estava eu entalada diante de um pequeno morango de pano cuja borda deveria ser preenchida. E eu me enganando que o ponto cruz ficaria ótimo!

Fiz. Desfiz.
Não.
Tem que ser aquele ...
Ousei. Suei. Realizei.

Minha neta disse-"Vovó, você faz cada coisa tão linda!"

Quebrou-se o desencanto. Cantei o presente!

01/11/2012

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Verdade




Por Moema Ameom

Era noite. Momento de recolhimento.
-“Vó, não quero que você durma no meu quarto.”
-“Sabe me dizer por quê?”
-“Não.”

Embebi-me de felicidade.

Quantas vezes quis falar coisas do meu coração para meus avós, pais e parentes! Coisas que ficavam travadas na garganta, no peito, no espírito e na alma! Coisas que tumultuavam meus pensamentos fazendo-me acreditar que, para agradá-los, não podia falar o que sentia.

Ali, na minha frente, Lavínia, menina de quase três anos, colocava a voz de seu coração para fora com a tranquilidade que eu ainda não alcancei por completo.

Embebi-me de prazer.

Congratulei-me por ter percorrido o caminho da verdade. Todas as dificuldades percorridas se dissiparam dentro de mim e como um poderoso solvente, fez-me plena e absoluta na construção interna do meu Ser.

Agradeci-me!

30/10/2012

sábado, 20 de outubro de 2012

PIPOCA

Por Moema Ameom em 18/10/2012




Havia um pote cheio de pipocas.
Foco de união. 
Em seu redor três gerações partilhando o canto dos pássaros; som do fim de dia.
Mais uma vez o entardecer desta bela Cuiabá onde o sol nos presenteia com cenário majestoso ao se despedir.

Risos, olhares, troca de emoções, onde a verdade é exalada pelos poros.
Pipoca deliciosa!
Delícia de momento!
-“ Vó, prova esta!”
-“ Mãe, tá salgada?”



Fica-me o puro sentido da presença.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

ENTARDECER




O entardecer na cidade de Cuiabá remove montanhas emocionais fazendo-nos mortais conscientes.

Sentei na varanda da casa de minha filha, bem acocorada no meio fio como é meu melhor gosto. Ao longe uma voz: - “ Vóóóó... cadê você?” – “Estou aqui na varanda!”

Passos firmes se aproximam. Passos de mulher com três anos a serem completados em breve. Lavínia senta-se ao meu lado. – “O que você está fazendo aqui? ” –“ Gosto de ficar quietinha vendo a estrela Sol descansar. Gosto de sentir os movimentos das árvores, ouvir o canto dos pássaros dando boa-noite, perceber as cores no céu antes de chegar a escuridão.” 

-“ É muito bom, né vó?” Acocorou-se como eu.

Fez-se o mais profundo e intenso partilhar!

Do âmago de minhas lembranças surgiram cenas de quando eu a colocava em meu colo, ainda bem pequenina, bebê recém- chegada e lhe contava histórias da Sol e do planeta Lua. 

Embebi-me de revivências amadurecendo o belo momento de aprendizado onde nós  nos mestramos.

Demos as mãos. Éramos uma só. Kairós registrou.

15/10/2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

POETANDO


Por MOEMA AMEOM






Agua(r)dar

Existem lábios a espera

de beijos, sorrisos, assobios e muxoxos.

Existem lábios que vibram,

recolhem, encolhem e colhem,

sedentos,

a seiva da vida.

Estes lábios que foram seus,

agora sem dono,

tornam-se meus.

Focam-me nos desejos de minh’alma

que aguardam o fluxo do amanhã.


Part.indo

Parto

para me partir.


Parto

para me sentir.

Parto

em mil cacos

pedaços de mim.


Parto

Para reunir

o que de meu ficou

neste

parto

que me pariu.


Passeandando

Passo e repasso

o compasso do meu passo,

comungando

com o descompasso

que passa, capengando,

na luz do alvorecer.


Laviniando

Num dia

pingo

virou gente.

Pingo de gente.


Neste momento,

gente virou pingo.

Pingou gente.

Gotejou alma

no espaço acústico

do coração.


Nasceu minha neta.


EQUI . LIBRA

Balança
a pança
e lança,

no vento,
o pensamento.

Na anca
manca
baila
quem não mais há.

Balança
na lembrança
e cai.
Cai sem ai
e fica.

Finca
com intenção de VUÁ.


TRANS...

Meu tempo de lagarta passou.
Rompo o casulo da in.sanidade e parto
num parto de mim mesma
rumo ao in.sano.
Vou sanar os ossos.

Voo.
Com as frágeis asas da borboleta
que, por um dia vivem séculos de beleza plena.

Agarro-me aos galhos balouçantes das árvores irmãs
como quem se prende ao que se perde
com desejo de ganhar.

E, assim, acabo sendo EU.